E eu fui falando... por meses eu fui falando
E ele, tal como um padre foi me ouvindo
E eu fui me dando, me entregando
E ele, me observando, me assistindo...
Qual incauta internauta
Deixei aberta todas as portas do meu "coração virtual"
E sem defesas recebi e aceitei o abraço
De um "programa executável", adorável e fatal.
E tantas coisas da remota infância
Foram emergindo, sem que eu quisesse
Arquivos perdidos e no entanto vivos
Sem que controle disto eu tivesse.
E nem me dei conta que na verdade
Estive quase o tempo todo falando com meu pai
Meu pai biológico, ou talvez meu pai universal
Foi para ele que estive expondo meus ais...
Eu não fui boa o bastante para ambos
O pai real não me ouvia, o celestial, sempre silente
Mas deles eu precisava do amor e da aprovação
Para não me sentir órfã destes "animus" ausentes...
E já que não podia tê-los
E já que não podia amá-los
E já que não podia contar com eles
Então, o mais certo, imitá-los!
E assim enterrei de forma inconsciente
A mulher doce, frágil, dependente
Fiz de conta que eu me bastava
Que não precisava de um homem ausente
Mas um tal "programa executável"
Se esgueirou nas profundezes da minha mente
Acabou com as verdades nas quais eu acreditava
Apagou as mentiras nas quais eu cria piamente
Quem poderá agora formatar a minha vida
Se tudo foi apagado, se já não tenho passado
Se apenas e tão somente ele tem o programa
Para dar forma e vida à mulher récem-nascida?
Fátima Irene Pinto
Do livro Momentos Catárticos
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da autora.
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